faz

o que faz

escritor

não é poeta

que escreve

mas o louco

que põe o mudo

no mundo

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a cor dos olhos

Qual é a cor dos olhos do seu namorado? Com essa pergunta para a sua filha, Ana sintetizou o drama dos nossos tempos. Não há mestrado, doutorado, pós-doc na Sorbonne que explique melhor nossa dramática pós-modernidade do que a simples e enigmática questão: “Qual é a cor dos olhos do seu namorado?”.

Conheci Ana na esquina da Atlântica com a Anchieta. Eu esperava o sinal fechar, ela esperava o ônibus. Uma senhora passou de fone, esbravejando alto no celular. Olhei rindo para Ana e a cumplicidade dos nossos olhares deu início instantâneo a uma conversa que durou dois sinais verdes e dois vermelhos: “Não consigo me acostumar com esses tempos”, iniciei. E papo vai papo vem, Ana me veio com essa: “Perguntei para a minha filha adolescente: Qual é a cor dos olhos do seu namorado? Castanho? Claro ou escuro? Ela não soube me responder direito”.

Qual a cor dos olhos do seu namorado? Repeti alto e falei que ia escrever. Agradeci. Me despedi. Atravessei o sinal.

preto

a cada cachorro

que vai

vou morrendo de mim

e uivo e sinto

no fundo

o choro

da dor

de perder

um alguém

 

mundo de folhas secas

de carne crua e fresca

doce é água da piscina

e um longo passeio de tarde na colina

cheirar um leque de vira-latas

namoro de verão bem na calçada

dormir ao som da viola

ou do piano

roncar e roncar e roncar

assistir a tarde chegar

e gastar

meu tempo

de cachorro

viver antes que morro.

Zabumba

De 5 às 5

Bater tambor

Pra rua

a flor

de música-amor

Você e quem vibrar

 

Estaca o tempo

O bacalhau

Na pele o sal

de mergulhar

no mar

dessa levada

Por cima de todas

As levadas;

misturada.

 

No caos

de todas as estradas

tudo ou

nada

 

na cor

o cheiro dos prazeres

tantos seres

 

calçada na dor

e no cortejo

dos presentes

 

remar pelo mar

e ver os peixes

ser os peixes.